Seria assim…

Seria assim…

–          “Uma reforma agrária que, democratizando o acesso à terra, dê a milhões de lavradores condições de viver, comer e progredir com suas famílias, e de assegurar a fartura da cidade;

–          Uma reforma urbana que socorra tanto os milhões de favelados como a classe média escorchada pelos aluguéis;

–          Uma reforma educacional que amplie a rede pública, matriculando todas as crianças e proporcionando-lhes meios de prosseguir nos estudos, segundo a capacidade de cada uma delas;

–          Uma reforma tributária que corrija a desigualdade da distribuição dos encargos entre o capital e o trabalho, entre os ricos e os pobres, entre os trabalhadores e os patrões;

–          Uma reforma administrativa que acabe com a burocracia e a corrupção no serviço público;

–          Uma reforma eleitoral que inclua todos os brasileiros adultos, incluindo a maioria constituída de analfabetos, na condição de eleitores e elegíveis;

–          Uma reforma universitária que permita edificar no Brasil as universidades necessárias para promover o desenvolvimento nacional autônomo, a partir do modelo de universidades do Brasil;

–          Uma reforma bancária que leve crédito e financiamento a todas as forças produtivas a juros normais, sem usura e sem corrupção;

–          E, uma reforma no trato com as empresas multinacionais para que o Brasil deixe de ser escorchado e condenado à dependência.” [i]

A Mensagem Presidencial ao Congresso Nacional do Presidente, acrescenta o plano de construção da Hidrelétrica de Sete Quedas, a conversão do Brasil em exportador de aço, a implantação da Embratel, da Eletrobras e da Universidade de Brasília. [ii]

Seria assim…

Mas …

–          A oposição udenista, que agremiava jornais, rádios, TVs e apoiada pela Igreja, conspirando com os governadores de São Paulo (Ademar de Barros), de Minas Gerais (Magalhães Pinto), e do Rio de Janeiro (Carlos Lacerda), junto aos comandantes militares do Exército, Marinha e Aeronáutica (que traíam a liberdade do país convocando tropas militares do Estados Unidos, articulando a sedição em Washington que promove a Operação Brother Sam), se recusa a votar no Congresso Nacional as reformas, porque contrárias aos interesses e à hegemonia das classes dominantes;

–          A Texaco, Shell, Ciba, Schering, Bayer, GE, IBM, Coca-Cola, Souza Cruz, Belgo-Mineira, Herm Stolz e Coty financiam o IBAD, comprando deputados e senadores, formando uma campanha diária de denúncia contra o projeto de Jango, afirmando que essas reformas levariam o país ao comunismo;

–          São criadas campanhas milionárias de difamação do governo. As rádios do país inteiro criam um clima de pânico, ampliado pelos jornais e televisão com o objetivo de apavorar as classes médias, numa batalha psicológica, induzindo ao pensamento de uma orientação pró-comunista;

–          Militares de baixo-escalão, treinados pela CIA, coordenam provocações dentro das corporações, programadas para indispor a oficialidade contra o governo;

–          Milhares de “marines” disfarçados são distribuídos por todo o país, orquestram agentes provocadores dentro dos movimentos sociais;

–          Os golpistas promovem em São Paulo e no Rio de Janeiro, as “Marchas com Deus pela liberdade”, encabeçadas pelas principais “damas”;

–          O presidente dos Estados Unidos, Lyndon Baines Johnson, constitui a “operação Brother Sam” , com uma esquadra chefiada pelo porta-aviões “Forrestal”, um porta-helicópteros, seis destróieres de apoio, quatro petroleiros, setes aviões de carga C-125, oito aviões de caça com mais oito aviões-tanque e um avião de comando aéreo, portando cento e dez toneladas de armas e munições, que se deslocam para a costa brasileira, ficando estacionada em Vitória, no Espirito Santo;

–          As Forças Armadas se subvertem, comandada pelo adido militar norte-americano Vernon Walters, conduzida por oficiais udenistas, referendados pelos empresários, inclusive todos barões da imprensa jornalística (de ontem e de hoje);

–          A operação golpista se precipita com o levante em 31 de março de 1964 e marcha sobre o Rio de Janeiro da guarnição de Juiz de Fora, sob o comando do general Mourão;

–          A seguir, vão aderindo ao golpe anti-democrático os comandantes dos vários corpos militares.;

–          Toda a imprensa golpista vibra de satisfação e praticamente todas as rádios vão transmitindo marchas militares;

–          Com o comboio do Brother Sam em mares brasileiros e com a tropa de Mourão aproximando-se do Rio de Janeiro, o presidente retorna a Brasilia a 1º de Abril e, de lá, voa para Porto Alegre (de lá seguiria em exílio para o Uruguai, até que fosse assassinado sob ordens do ditador-general Ernesto Geisel);

–          No Rio de Janeiro, a UNE é incendiada pelos militares e o jornal Última Hora é “empastelado”;

–          Inúmeros líderes sociais são presos (a seguir muitos seriam torturados e mortos pela ditadura);

–          No nordeste, os camponeses das ligas (primeira versão do MST) são assassinados junto com suas famílias, em atos de pura crueldade, pelas polícias regionais e jagunços dos ruralistas;

Assim, os falsos liberais, dizendo que a democracia estava ameaçada, em vez de promover e exigir mais democracia, construiram uma ditadura, enchendo de sangue, cativeiro e tortura a história do país por mais de duas décadas, na supressão do Estado Democrático de Direito. [iii]


[i] Reformas de Base propostas pelo presidente constitucional do Brasil João Belchior Marques Goulart (Jango).

[ii] Mensagem Presidencial do Presidente João Goulart, em 15 de março de 1964.

[iii] Os fatos históricos aqui narrados (e outros tantos mais) estão disponíveis em Darcy Ribeiro, “Aos trancos e barrancos: como o Brasil deu no que deu”, 2ª ed., Rio de Janeiro: Ed.Guanabara, 1985, 2.443 páginas.

Joseph Shafan

Publicado no Recanto das Letras em 31/03/2010
Código do texto: T2168842

http://recantodasletras.uol.com.br/ensaios/2168842

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